Sábado, 19 de Julho de 2008

Noite Da Grande Paz, Da Grande Paz Dos Seus Olhos*

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"A garota da rua de baixo é linda, tem cabelos longos, sotaque mineiro,
sorriso fácil e uma qualidade que é difícil de medir:
ela me faz rir"
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Esses escritos são mais do que uma simples crônica, mais do que um amontoado de letras, palavras e frases, devidamente separadas por pontos, vírgulas e espaços, como manda a semântica a sintaxe e as demais regras gramaticais. Tampouco, esses escritos, ordenados de forma tão tardia tendo em vista o seu grau de importância, são uma mera carta de agradecimento ou de contemplação. Esses escritos, amigo leitor, são na verdade um tratado, um breve tratado sobre um sentimento às vezes controverso e motivo de delírios e preocupações, um sentimento por esse cronista sentido, exclusivamente pela garota da rua de baixo.

A garota da rua de baixo é linda, tem cabelos longos, sotaque mineiro, sorriso fácil e uma qualidade que é difícil de medir: ela me faz rir. Não quero me gabar ou correr o risco de parecer arrogante e convencido aos olhos alheios, mas cá entre nós, o que torna tudo isso ainda mais fascinante é o fato de ser recíproco.

Nos conhecemos como manda o figurino de qualquer uma dessas grandes histórias de final feliz. Em uma festa de criança, num almoço de domingo de dia claro e sem nuvens. De lá pra cá não fiquei um dia sequer sem pensar nela. Descobri os seus trejeitos, trocamos alguns segredos, rimos (muito), alçamos vôos e aterrizamos, ora em solo fértil ora em ruínas, mas sempre decolamos novamente. Até que um dia trocamos três palavras: “EU AMO VOCÊ”. Assim, nessa ordem...

Parece que não, mas é complicado conciliar essas três palavras em uma única frase. Pelo menos pra mim. Talvez pela falta de prática (essa é a hipótese mais sensata) me provocou estranheza aos ouvidos e à fala, pronunciá-las em um primeiro momento. Mas disse com sinceridade. Disse. Com todas as sílabas. Eu-te-amo. Pela primeira vez.

Agora que já faz um ano que estamos dividindo o mesmo sentimento, é até cômico depois de viver 20 anos sem ela, não me imaginar mais sozinho. É que me acostumei com carinho e o abraço quente; com os filmes e os seriados de TV; com a companhia, simples companhia; com os beijos, os Beijos e os BEIJOS. É que me acostumei com a sua voz alegre ao ouvir “Till There Was You” música de janela, cartola e serenata; com a sua censura às avessas; com os lábios que minha boca marca enquanto sorriem.

Por isso garota da rua de baixo, peço que todas as noites sejam da grande paz, da grande paz dos seus olhos, olhos castanhos, cor de madeira molhada, olhos que dizem, que sorriem, que sei que volta e meia choram escondidos, e o mais importante, que encontram tempo para me olhar em meio a multidão, quando nem eu mesmo me vigio.

E é por essas e outras, “é por isso que de agora em diante, pelos cinco mil alto falantes eu vou mandar berrar o dia inteiro que você é o meu Máximo Denominador Comum.” **.

* Título da segunda parte da obra “Capitães da Areia” (1937) de Jorge Amado, quando o personagem Pedro Bala se descobre apaixonado por Dora.

** Trecho da música “Tú És o MDC Da Minha Vida” (Raul Seixas / Paulo Coelho) presente no disco Novo AEON (1975).
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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Amor Imperfeito

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Essa crônica foi escrita por Victor Hugo, estudante de Educação Física pela U.E.M. e que leva um tremendo jeito com as palavras. Eu apenas fiz alguns ajustes e troquei algumas sílabas, mas a idéia desde o seu rascunho até o ponto final são deste que é um grande amigo desde a primeira série.

"Junto um calhamaço de folhas, e vou para o quarto rindo de como
é gostoso sonhar desde a época de zigoto até a pos puberdade"
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Em uma mesa retangular, dessas como a maioria, e sentado em uma cadeira extremamente desfavorável para a sua função que seria acomodar, começo a me lembrar dela. Essa lembrança me causa um sentimento que agora denomino de angústia, mas que amanhã posso chamar de qualquer outro nome.

Como pude deixar tudo passar assim tão rápido e escapar de minhas mãos tão facilmente? Faltou luta? Faltou respeito? Faltou... Faltou o quê afinal?! E ao mesmo tempo essa falta me faz lembrar do exagero, do que sobrou, sobraram risadas, sobrou compartilhamento, sobrou... Sobrou...

Faço uma analogia desse momento com a morte. A morte em seu princípio é o fim de tudo. Ruptura. Linha de chegada. Porém, com o passar dos anos, a memória vai se confortando, a alma vai aceitando... Com o amor percebo que não é diferente. Quando acaba também parece o fim, mas há uma diferença, que sem trocadilhos, faz toda a diferença, pois esse fim acaba sendo o meio para outras coisas, inclusive àquelas suas vontades mais íntimas, guardadas em outrora a sete chaves.

Permita-me leitor, compartilhar agora depois do começo do fim o começo do começo. Lembro-me de tudo. Era bom. Sem tantas responsabilidades. Aquele mimo. Muitas carícias. Beijos de todos os tipos, até enjoava um pouco, confesso!

Naturalmente as coisas vão mudando, mudam os beijos, mudam as pessoas ao redor, mudam as responsabilidades, na verdade, essas aumentam, e muito, mas será eu preparado para tanta responsabilidade?! Vai saber...

O meu relógio não para, (tic-tac, tic-tac...) Os dias começam e findam. Acabam, e com ele os anos. Nossa! ANOS? Sim... Começam as dúvidas, as perguntas. Mãe será que é isso?! Amigos ajudam também, raros amigos.

Começo a me desesperar quando “dou de cara” novamente com o meu relógio cronológico, ele não pára, (tic-tac, tic-tac...) pelo contrário, acelera cada vez mais. Será o ciclo de radiação do césio que está acelerada ou estou impressionado?

Impressionado. Eu realmente estou impressionado. Não com o tempo na verdade, mas com as pessoas, que tudo tem a ver com a minha historia de amor. Quantas pessoas não passaram como um trem por essa história, e ficaram na estação?

Fim de noite, perdido em pensamentos, não paro de pensar nos porquês de deixar algo para trás. Porque não viver intensamente cada momento que você caracteriza como mágico?! Por quê? Por quê? Por quê?

É quando uma mão interrompe toda essa trajetória de vida. Quem será? Onde estou?!

É mamãe: calma filho, não passou de um sonho. Já é tarde. Vá pra cama....

Junto um calhamaço de folhas, e vou para o quarto rindo de como é gostoso sonhar desde a época de zigoto até a pos puberdade. Rindo de como é gostoso rir, acima de tudo. Rindo do amor imperfeito. Imperfeito como a gente.
;;
Victor Hugo

Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Encontro Proibido

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"Seria cômico se não fosse trágico, mas a verdade, é que a cerveja ao redor
da U.E.M. em plena época de vestibular é produto em extinção"
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Hoje é sábado e o tic-tac do relógio comprova que a tarde começa a se findar. O sol já vai se inclinando e nesse momento é impossível não pensar nela. Saio de fusquinha pelas ruas ao redor da U.E.M. na esperança de encontrá-la. Sempre ela me esperava por ali. É triste a dor de estar separado de quem se gosta. É uma falta estranha, quase biológica. É uma dor chata, e sem trocadilhos, é crônica.

Passo por todos os becos. Nas esquinas onde um dia trocamos votos sinceros, paro e fico observando os poucos transeuntes que vêm e vão. Como eu a queria agora! Conforme os ponteiros do relógio avançam, a saudade e o desejo aumentam. Saudade de tê-la, loira, deliciosa, naquele casaco marrom cor de terra fresca, que meus dedos tanto prezam. Saudade e possuí-la mais uma vez... Mas infelizmente nosso encontro está proibido. Eu quero. Ela eu sei que também quer. De nada adianta.

E assim meus amigos eu me conformo, pois pelo jeito, por muito tempo ela não dará as caras, não há nem indícios de que esteve por aqui um dia. Seria cômico se não fosse trágico, mas a verdade, é que a cerveja ao redor da U.E.M. em plena época de vestibular é produto em extinção.

Esse é o resultado da lei seca que de tempos pra cá persegue aos boêmios. Primeiro foi o veto de sua comercialização nas rodovias federais. Agora mais algumas dessas assim chamadas “medidas de contenção” foram colocadas em prática.

A partir do dia 20 de Junho quem estiver 0,2 grama de álcool por litro no sangue comprovado pelo teste do bafômetro (que por muitos é tido como inconstitucional) terá o veículo retido e pagará multa de R$ 955,00. Já se o total de álcool no sangue ultrapassar 0,6 g/l, o motorista será conduzido até a delegacia e pode pegar pena de seis meses a um ano de cadeia. E isso não é tudo.

Foi estritamente vetada qualquer comercialização ou consumo de álcool nos dias em que acontece o vestibular da U.E.M. agregando àquela proibição de venda de bebidas alcoólicas em estabelecimentos que se situam a menos de 150 metros das faculdades de Maringá, que também já deu o que falar.

É triste ver o resultado dessa lei que de seca não tem nada, no máximo podemos chamar de úmida. Úmida porque um estudante que viaja dezenas, às vezes centenas de quilômetros para estudar, não vai se incomodar de ter que andar 151 metros da Faculdade para poder encher a cara. Úmida porque com tolerância zero não se coíbe os excessos, apenas os transfere.

Concordo que tais excessos existem e que devem ser coibidos. Porém, talvez fosse mais justo uma fiscalização mais incisiva, focada nos exageros, na venda de bebida para menores, no consumo de drogas desenfreado. Talvez fosse mais justo. Certamente seria mais custoso. E se é para mostrar serviço à comunidade que venha a medida mais fácil: fecham-se os botecos, armam-se as blitze e se preciso usa-se a força.

Infelizmente essa foi mais uma história sem final feliz. Uma história de separações e intolerância, de vitória do mais forte sobre o mais fraco, de imposições desmedidas.

Agora chega de falar de abusos e injustiças, esse papo me deixou com uma sede danada e as poucas latinhas de cerveja que deixei na geladeira antes de sair de casa já devem estar geladas.

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Desperta Dor

Felizmente as férias chegaram e junto com elas um pacote de idéias crônicas na minha cabeça, no entanto, enquanto elas não são colocadas no papel, ou melhor na tela do computador, seguem-se crônicas do Zé Pedro, um sujeito de boas histórias...


natureza morta

"O desejo de sumir, desaparecer, deixar para trás, casa, família, amigos, serviço e sozinho, sem dinheiro e sem documentos, fugir para qualquer lugar que não exista patrão, buzinas e principalmente despertador"

Era um dia maravilhoso. Em um carro importado vermelho, Zé Pedro dirigia em alta velocidade. Sentia o vento forte, que cortava seu rosto e jogava para trás os cabelos da linda morena, que com um sorriso faceiro lhe acompanhava. Ela era maravilhosa como o dia que se sucedia, e não menos maravilhosa era a estrada em que seguiam. Sem curvas, sem sinalização, sem congestionamento e paralela a uma praia exuberante.

Nada podia ser ouvido, além do barulho do vento cortante e das ondas a se quebrar. Mas inexplicavelmente o rádio, que Zé Pedro nem havia notado, começou a tocar.

Aos poucos seu volume foi aumentando. A morena, agora assustada, ameaçava saltar do carro em movimento. A estrada desaparecia em baixo dos pneus do carro e o vento que antes, cortava-lhe o rosto, se transformara num ar rarefeito. Zé Pedro, desesperado tentava inutilmente desligar o rádio, mas seu volume estava alto demais para seus ouvidos suportarem.

E o inevitável aconteceu.

Foi assim que o despertador convidou Zé, a abandonar a morena, o carro e a estrada, para se encontrar com a manhã que surgia cinzenta pela sua janela. Naquele instante, ele faria quase tudo por mais vinte minutinhos de sono. Ficaria sem beber por uma semana, assistiria a todos os programas políticos, trocaria de time de futebol, ou até mesmo se desfaria de sua coleção de latinhas de cerveja. Tudo para ter mais uns minutinhos de sono, para mergulhar de baixo das cobertas e tentar encontrar novamente a morena em seus sonhos.

Porém, de nada adianta, a manhã é cruel, não aceita negociações. É nessa hora, ainda deitado apesar de acordado, que cresce em Zé Pedro, o desejo que tem todas as manhãs. O desejo de sumir, desaparecer, deixar para trás, casa, família, amigos, serviço e sozinho, sem dinheiro e sem documentos, fugir para qualquer lugar que não exista patrão, buzinas e principalmente despertador.

Quem sabe, montar em um pangaré. Parar em uma cidadela do interior e lá encontrar uma linda camponesa queimada de sol, disposta a lhe oferecer a sua virgindade. Que bom seria. Iria buscar leite de sua vaca mimosa ao acordar, despertado não pelo barulho estridente do despertador, mas pelo canto do galo anunciando o nascer do sol.

Com sua amada, sairia para buscar água no poço e depois, se amariam em baixo de um pomar carregado de maçãs, ali mesmo, na grama ainda úmida pelo orvalho da madrugada.

Teria também, um pedacinho de terra e quando estivesse na roça, veria ao longe sua companheira lhe acenando para almoçar e seu casebre entre montanhas, que se perdem no horizonte e solta fumaça de lenha pela chaminé.

Realmente seria incrível ir para um lugar desses. Ou quem sabe, realizar um sonho antigo de morar a beira-mar.

Poderia então, fugir para uma ilha de pescadores, longe dos grandes centros e cercada de água por todos os lados. Dormiria na rede, ouviria o som das ondas se quebrando nas rochas e sentiria a leve brisa marítima a lhe acariciar o rosto, acompanhando-o até a chegada do sono.

Viveria em uma casa simples e possuiria um pequeno saveiro, que lhe permitiria desbravar o mar na madrugada, em busca de pescados. Saveiro que levaria o nome de sua amada que nas noites de temporal, rezaria angustiada à sua espera e nas noites de estrela o receberia de sorriso no rosto, na beira do cais. Ela se prenderia em seu corpo cheio de sal e na areia fria, matariam sua saudade.

Mas de nada adianta sonhar, a manhã é cruel, não aceita outra realidade que não a sua. Zé olha para seu maior inimigo, o perverso e impiedoso despertador, já se passaram cinco minutos e ele precisa se apressar para não perder a condução...

Todos sentem às vezes, vontade de deixar tudo para trás, recomeçar, fazer diferente. Assim se sente Zé Pedro todas as manhãs, que entre maltrapilhos e transeuntes, se dirige rumo ao trabalho.

Agora ele já não pensa no carro que não pode dirigir, na morena que não pode ter e na fuga que não pode realizar, mas odeia com mesma raiva de outrora, o detestado despertador que não pode silenciar.


sertanejo

as imagens foram retiradas do site:

Blog dos Fernandos

"Um Fernando incomoda muita gente... dois Fernandos..." se juntam, montam um blog muito interessante sobre fórmula 1 e por incrível que pareça, informam mais do que conseguem incomodar.

Brincadeiras à parte, vale a pena conferir o blog desses dois aspirantes à jornalista e fanáticos por corrida. Até a próxima volta.

Como diria Giuliondi: FUI!

http://blogdosfernandos.blogspot.com

Domingo, 22 de Junho de 2008

Problemas e Mais Problemas


“Sem querer, deixei vir à tona meu lado desengonçado, que sempre aparece sem aviso ou premeditação. Esbarrei no criado-mudo, derrubei o livro, que caiu aberto, e pronto... Lá se foi o marca-páginas, parar a uma distância considerável de seu local de trabalho”

Problemas, problemas e problemas. Tenho tido muitos problemas ultimamente, alguns mais graves, outros nem tanto, mas problemas sempre são problemas.

A começar por agora. Estou eu, aqui sentado com um frio danado na frente do computador, com muito café no sangue para conseguir dormir e uma vontade louca de reclamar e compartilhar as desavenças e infortúnios da vida.

Por falar nisso é bem complicado esse negócio de dividir problemas via blog sabia? É que a insegurança e a sensação de que ninguém lê os amontoados de letras que chamamos de frases, e que publico é sempre presente.

Talvez fosse mais justo reclamar à mulher nua que tenho desenhada na parede de meu quarto, e que apesar da insistência em lá se fazer presença, dia após dia vem sumindo com as várias mãos de tinta sobre ela desferida, ou quem sabe, dividir os meus problemas com meu cão, o Mancuso, de três patas, e muito dengoso por sinal. Talvez tudo isso fosse mais eficiente e quem sabe, mais digno, mas vou insistir no blog.

Tento me lembrar do último problema que tive e admito que me dói recordá-lo e perceber que ainda não encontrei sua solução, e mais, que provavelmente, nunca encontrarei.

Era noite como hoje, frio como hoje, por volta das onze horas como hoje, mas era ontem. Estava eu, sonolento em meu ritual de preparo para encarar os sonhos e/ou pesadelos da madrugada. Na boca o gosto de menta da pasta de dente, em mãos um livro do Rubem Braga. Li a última crônica da noite, marquei onde havia parado e coloquei a obra sobre o criado-mudo. Ameacei apagar a luz, mas antes de fazê-lo, resolvi espiar as horas. Foi aí que tudo aconteceu.

Sem querer, deixei vir à tona meu lado desengonçado, que sempre aparece sem aviso ou premeditação. Esbarrei no criado-mudo, derrubei o livro, que caiu aberto, e pronto... Lá se foi o marca-páginas, parar a uma distância considerável de seu local de trabalho. Não sei em que página estava, nem do assunto em pauta, eu me lembro. Confesso que emputecido (desculpe-me o leitor mais recatado pelo termo) nem o recolhi, e como espécie de castigo o deixei ali, no chão, até amanhecer.

Mas tudo bem. Já superei isso. O máximo que terei que fazer é ler algumas crônicas repetidas e se tratando do Rubem Braga, não é esforço nenhum.

O que eu quero, na verdade, é falar de outros problemas... Da prova que não estudei, do dentista de amanhã, do dinheiro que não veio, da caligrafia que não compreendi, do CD que riscou, do Fusfabill que não pegou, da gasolina que subiu, da gripe que peguei, do time que empatou, da mentira que ouvi, do orçamento que não fechei, do filme que me decepcionei, da sinuca que perdi, da crônica que não saiu. É isso que quero dizer... Da fome mundial, do aquecimento global, da manipulação midiática, da geada no sul, da violência urbana, do título roubado de 95, das inundações monçônicas na Índia, do capitalismo selvagem, do socialismo utópico. É isso que eu quero... Quero reclamar e desabafar porque, meu leitor, meu caro e honroso leitor, definitivamente, esclarecidamente, confirmadamente e comprovadamente, eu TENHO PROBLEMAS!

...

É. Tenho problemas!

...

Tenho problemas.
...

Tenho problemas?

...

Tudo bem... Eu sei... Não tenho tantos problemas. Até ouço meu pai a dizer, com sua voz de quem já se acostumou a falar por breves 45 anos: “Você tem um amor, uma família, um lar,emprego, um dom e várias, infinitas, infindáveis oportunidades de vencer em alguma coisa. Sim. Você tem problemas, e junto com eles, tem total condição de resolvê-los”.

Diferentemente encontra-se meu cão, o Mancuso, que tem apenas três patas e anda com alguma dificuldade. Diferentemente encontra-se e a mulher nua, desenhada na parede que cada dia mais transparente, incondicionalmente vai desaparecer. Esses sim são problemas que se preze. Ainda bem que não fui importuná-los com as minhas queixas sem fundamento.

Ainda bem.

Agora chega de escrever, pois ainda tenho algumas crônicas repetidas do Rubem Braga para ler até o sono vir. Até o próximo post!

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Crônica aos Meus Devedores: Me Paguem


Caros amigos, serei sincero (não que não tenha sido das outras vezes), sem rodeios, digo, que essa crônica, tem um objetivo singular, único e particular: cobrar meus devedores. Só isso.

Confesso que já tentei de tudo. Já fui pessoalmente, não encontrei o indivíduo. Já telefonei, o telefone não dá linha. Já mandei um e-mail, não obtive nem sinal em minha caixa postal. O jeito que encontrei, então, é tentar receber daqueles que me devem, através de uma crônica. Será que dá certo? Não custa nada tentar. Já tentei tanto...

Não entendo como existem pessoas, que conseguem levar a vida assim, a prazo, sem juros e sem hora para prestar contas. O que vejo, assim, é que já existem mestres e doutores, espalhados por aí, especialistas na arte do calote, e nessa toada, meus devedores possuem PhD.

É preciso, no entanto, diferenciar os tipos de devedores, que variam de calote a calote. Por isso vou aqui, me referir aos mais freqüentes. O que não muda, porém, é o famoso “vou te pagar”.

Sem dúvida, o “vou te pagar”, que mais me irrita (e por isso vou citar logo no início, para não correr o risco de ele desistir de ler), é o daquele que, além de dever, fica extremamente irritado e agressivo quando cobrado. Exclama, gesticula, grita, argumenta... Dá um show. “Como é que você tem a coragem de vir aqui me cobrar?! Ta duvidando do meu caráter?! Onde esse mundo vai parar? Ninguém confia mais em ninguém. Já disse que “vou te pagar”! Isso é inconcebível, se voltar aqui a coisa vai ficar feia pro seu lado heim...”, diz o infeliz.

Há também o “vou te pagar” mudo, que não diz nada. Sabe qual é? Pois bem, esse se esconde, foge. Vira uma rua antes da de sua casa. Pára de freqüentar os mesmos lugares que você e se por acaso do destino, se encontrar com ele na fila do banco ou no supermercado, este está sempre com pressa e diz: “Acredita que lembrei de algo importantíssimo? Tenho que ir, depois a gente se encontra por aí...” e assim ele vai... Todo apressado, entra em seu carro novo (dinheiro pra te pagar ele não tem) liga o som, o ar-condicionado e acelera sem nem olhar pros lados.

Outro “vou te pagar” corriqueiro em minha lista de devedores, é o do constrangido. Às vezes dá até dó. Esse não olha nos olhos, sua voz não sai mais do que um sussurro e só se utiliza de termos genéricos como: “depois passo em sua casa, pra resolver aquele assunto” ou “não se preocupe, vou acertar tudo com você”. Pagar que é bom, nada.

Mas é claro que se há o “vou te pagar” do constrangido, existe também o daquele que não está nem um pouco preocupado. Geralmente é um amigo próximo ou parente, o que dificulta a cobrança. Ele chega a sua casa, cumprimenta a todos, abre a geladeira e só toca no assunto pagamento em uma ocasião, quando quer pedir mais dinheiro emprestado: “Você que é meu irmão de consideração e sabe disso, não poderia me emprestar uma grana? Sei que estou te devendo uma mixaria aí, mas depois, pago tudo de uma vez só”.Desses caras-de-pau, existem as pencas.

E pra finalizar, não poderia deixar de citar o “vou te pagar” = “vou te devolver”, que pega qualquer coisa emprestada, desde a caixa de ferramentas, a CDs e livros e se apossa dos bens. Para conseguir recuperar o que foi emprestado (quando recuperado) é preciso implorar, e sempre ele (o bem, não o devedor) retorna todo sujo ou estragado.

Pois é meu caro, não adianta olhar para os lados, essa crônica, foi feita pra você mesmo. Só pra lembrar, estarei em casa amanhã, a partir das 6 horas. Se puder faça-me uma visita, estarei aguardando, afinal, seria bem desagradável, ter que usar nomes...

Toc-toc

Alguém me bate à porta. Quem será a essa hora? Vixi! Deixa eu ficar em silêncio, porque deve ser um daqueles cobradores de sempre... Eita povo desesperado viu!!
...
Crônica Publicada no jornal Tribuna do Interior, de Campo Mourão